setembro 04, 2014

[Livros] O Doador de Memórias - Lois Lowry (O Doador #1)

Título Original: The Giver
Autor: Lois Lowry
Editora: Arqueiro
Páginas: 192
Gênero: Ficção, Romance
País: EUA
ISBN: 9788580412994
Classificação★★★★★
_______________

Um dos livros que mais me fez pensar e definitivamente uma das melhores leituras do ano, talvez da minha vida. O Doador de Memórias, tem dentre diversos significados, um lado filosófico e questionador, que coloca à prova muitas das nossas concepções de vida.

É possível traçar diversos paralelos entre a ficção e a nossa realidade atual, o livro é considerado por muitos críticos literários como um verdadeiro alerta para a humanidade, ou para o que resta dessa humanidade em nós mesmos. Aqueles que conseguirem desvelar esse livro, verão além, entenderão o porquê da liberdade, o porquê do livre-arbítrio. E se o mundo fosse perfeito? É possível viver sem sentir dor? Sem sentir fome? Sem sentir? 

Na história, muitas das informações e verdades explicadas são novas para o protagonista. E assim, vemos o mundo com outros olhos. Nessa sociedade distópica (que não está assim tão distante da realidade), o conhecimento é restrito e só uma pessoa o detém: o doador. Ele guarda lembranças de tudo o que o mundo já foi, de todos os sentimentos, sensações, emoções que foram há muito tempo proibidas e suprimidas. Essa perspectiva empirista faz com que tudo o que nos é comum hoje em dia, seja desconhecido para os personagens.

O poder de escolha foi completamente destituído das pessoas. E a grande sacada do livro é a de que: "...se pudéssemos escolher, escolheríamos errado." Tudo passa, então, a ser decidido por um Conselho, que determina desde seu nome até seu cônjuge ideal, seu emprego e sua morte. Os casais não geram filhos, há um controle de natalidade que gerencia toda a propagação da espécie, para que não existam pessoas demais no mundo novamente.

Há um conceito interessante também sobre a chamada 'dispensa'. Essa dispensa é dada àqueles que já alcançaram uma determinada idade, às crianças que não atingiram o desenvolvimento esperado e até aos adultos subversivos. Ou seja, a vida e a morte viraram algo automático, decidido por membros superiores da Comunidade. As pessoas seguem regras, são condicionadas a um tipo de vida previsível e que não permite evolução. Se você ousar pensar, sentir ou discordar você é dispensado. Simples assim.

O único ponto fraco do livro é justamente o que faz dele um sucesso com os jovens, a narrativa ser tão corrida. Perto do final, a autora segue num ritmo frenético, ao qual nem o leitor mais atento consegue acompanhar. Tive de reler algumas passagens porque os acontecimentos são minimamente descritos e o tempo passa absurdamente depressa. Analisando bem, talvez essa seja uma característica proposital da cronologia, tendo em vista que a partir do momento em que a verdade é desvelada, o relógio da vida finalmente volta a funcionar.

Reflexões filosóficas à parte, esse livro é incrível. Ou pelo contrário, extremamente crível e por isso, sua genialidade assusta. É um alerta para as futuras gerações e para nós mesmos. Muitas das lições que a sociedade futurística de Lois traz, podem sim, ser empregadas no nosso dia-a-dia, mas outras claramente nos tornariam seres limitados e involuídos.

Jonas vive com seus "pais" e sua "irmã", ele nunca pensou sobre sua vida. Aliás, as pessoas não pensam mais. Todos vivem conformados, satisfeitos e assim, as coisas funcionam. Roboticamente, mas funcionam. Antes de completar seu décimo segundo 'aniversário', o garoto se prepara para a Cerimônia de Doze, uma ocasião importante que determinará sua função dentro da Comunidade. Enquanto seus amigos são designados à funções comuns, como médico, cuidador de idosos, ou instrutor de crianças, o garoto é escolhido para ser o próximo Doador de Memórias. Sem saber o que isso significa, Jonas nem imagina que o mundo onde vive está prestes a mudar.

No seu primeiro dia de 'treinamento', ele descobre que o velho senhor chamado de Doador carrega um grande fardo, as lembranças. Ele detém, sozinho, todo o conhecimento do mundo e assim, dolorosamente ele vê as pessoas vivendo na ignorância, sem nem sequer imaginar como a vida foi diferente um dia. Ao mesmo tempo que o Doador guarda memórias boas, como o amor, a felicidade, o calor do sol, um dia de verão ou uma festa natalina, ele também tem conhecimento das guerras, das tragédias, da morte, miséria e da dor.

A tarefa de Jonas é receber as lembranças e guardá-las consigo, sem poder nunca dividi-las com ninguém. Apesar de ser considerado um mundo perfeito, a sociedade se sustenta com base no que deu errado no passado, evitando repetir os erros que a humanidade cometeu antes e por isso alguém precisa saber de tudo o que já aconteceu. Reafirmando a ideia do conhecimento, o local onde o Doador treina Jonas é nada mais nada menos que uma gigantesca biblioteca.

Aos poucos o garoto vai entendendo que a vida é muito mais do que ele achava que era e ele se vê no dilema entre manter o que sabe em sigilo e proteger todos em suas próprias ignorâncias, ou dar a eles a oportunidade de fazer suas próprias escolhas. Afinal, sem erros e acertos nós não evoluímos e por isso o mundo perfeito seria conformado, estagnado e nunca evoluiria. 

Essa é uma das minhas resenhas mais extensas, mas é só porque o livro gerou em mim um turbilhão de questionamentos. A narrativa é tão reflexiva que diversas escolas americanas utilizam O Doador (título original, e que na minha opinião, é muito mais complexo e coerente) como leitura obrigatória no ensino médio. Dizer que eu recomendo é pouco. Leia e escolha se prefere guardar essa memória com você ou dividir suas reflexões com o mundo. Eu dividi com vocês! 

"(...) - Desculpe, senhor. Não estou compreendendo.Talvez eu não seja inteligente o bastante. Não sei o que quer dizer quando diz 'o mundo inteiro' nem 'gerações antes dele'. Pensei que só nós existíssemos. Achei que só existisse o agora.
- Há muito mais. Há tudo o que está além, tudo o que é Alhures, e tudo o que ficou para trás, e atrás do atrás, e atrás do atrás desse atrás. Recebi todas essas lembranças quando eu fui escolhido. E aqui neste quarto, eu as revivi inúmeras vezes seguidas. É assim que se adquire sabedoria. E é assim que damos forma ao nosso futuro." (p. 82)

Sinopse: Ganhadora de vários prêmios, Lois Lowry contrói um mundo aparentemente ideal onde não existe dor, desigualdade, guerra nem qualquer tipo de conflito. Por outro lado, também não existe amor, desejo ou alegria genuína. Os habitantes da pequena comunidade, satisfeitos com suas vidas ordenadas, pacatas e estáveis, conhecem apenas o agora - o passado e todas as lembranças do antigo mundo foram apagados de suas mentes.

Uma única pessoa é encarregada de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz idéia de que seu mundo nunca mais será o mesmo.

Orientado pelo velho Doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar. Premiado com a Medalha John Newbery por sua significativa contribuição à literatura juvenil, este livro tem a rara virtude de contar uma história cheia de suspense, envolver os leitores no drama de seu personagem central e provocar profundas reflexões em pessoas de todas as idades.

"- Bom... - Jonas parou para refletir. - Se tudo é sempre o mesmo, então não há escolhas! Quero acordar de manhã e decidir coisas! Hoje vou vestir uma túnica azul ou uma vermelha. - Baixou os olhos para si, para o tecido sem cor de sua roupa. - Mas é tudo igual, sempre.
Então riu um pouco.
- Sei que não importa o que a gente veste. Não faz diferença. Mas...
- Poder escolher é que é importante, não é? - perguntou o Doador. (p. 102)


11 comentários:

  1. Oi Mari! Nossa, já conhecia o livro, mas não sabia da grandiosidade dele. Ainda não tinha lido nenhuma resenha, então fiquei bem surpreendida e gostei muito da sua.
    Gosto bastante de leituras reflexivas, porém, não sou muito de uma leitura corrida.
    Amei mesmo a ideia da história! E mesmo que seja corrida, não vejo a hora de ler! Beijo,
    entreeleitores.blogspot.com

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  2. Oi Mari, tudo bem?
    Uau que resenha maravilhosa! Não tinha dado muita bola para esse livro mas com essa sua resenha é impossível não se interessar pelo livro!
    A história me pareceu bem interessante e fiquei muito curiosa para saber mais sobre ela...
    Eu também fico um pouco incomodada com livros que de uma hora para outra aceleram demais o ritmo.
    Eu confio muito na sua opinião que sempre bate com a minha então espero realmente ler esse livro o mais breve possível!

    Beijão ;*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  3. Quero ler/ver rsrs.
    Não sabia que o livro tinha essa importância toda, o ponto de ser leitura obrigatória em algum lugar, ouvi falar dele a pouco tempo, mas é legal saber disso ^^.

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  4. É uma pena que o livro tenha uma escrita tão apressada. Não gosto de livros arrastados, mas livros corridos demais também não são legais.
    Gostei bastante da sua resenha.

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de setembro

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  5. Oi Mari, fazia um tempo que não lia uma resenha tão bem escrita, isso porque parece que as pessoas não conseguem mais se concentrar tanto tempo em alguma coisa a ponto de analisa-la a fundo.
    Gostei das palavras que usou para explicar esse mundo novo e perfeccionista.
    Parabéns pelo texto.
    Esse é um daqueles livro que estou realmente com muita vontade de ler.

    Beijos e até mais

    Raíssa Martins - O Outro Lado da Raposa
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  6. Oi Mari *__*
    enquanto lia só me vinha a seguinte expressão Uau!! Ia começar meu comentário assim, mais ai vejo a Maiara usando a mesma expressão rsrs!!!
    Mas vamos lá, ADOREI sua resenha ela faz qualquer pessoa correr e adquirir o livro o mais rápido possível!!
    Espero poder conferir logo, logo...

    Beijos
    Marília Lopes
    http://www.livrosesonhos.com/

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  7. Oi Mariana.
    Admito que a princípio não dei muita atenção a esse livro, mas conforme fui lendo resenhas e juntando informações, percebi que necessito conhecer essa história, até mesmo por se tratar de uma distopia, um gênero que eu adoro.
    E sua empolgação só contribui pra aumentar minha curiosidade.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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  8. Oi, Mari!
    Amei a resenha, super completa, realmente analisando o livro.
    Eu estou esperando pelo filme, que pretendo assistir. Talvez o livro fique para o futuro, porque tenho uma lista de prioridades no momento. =(
    Beijos,

    Priscilla
    http://infinitasvidas.wordpress.com

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  9. Oi, Mari! Como vai?
    Queria comprar esse livro na Bienal, entretanto não tive dinheiro suficiente... Mas, MEU DEUS, deve ser maravilhoso. Amo livros com questionamentos, que façam as pessoas pensar - porque ninguém merece viver nesse mundo onde as pessoas vêem histórias como simples histórias, mesmo que a crítica esteja estampada na cara delas. Sua resenha foi simplesmente perfeita; você explicou tudo o que gostaria de explicar sem dar spoilers nem nada do tipo. Muito bom. Estou louca para ler, ou pelo menos para assistir ao filme, já que não poderei lê-lo em breve... Sobre o ritmo do livro, mesmo que proposital, ARGH, não consigo ter uma boa leitura se for corrido. Minha mente não é boa em processar as coisas muito rápido. Acho que eu demoraria um pouco para ler por causa disso, uma vez que gosto de parar e perceber as palavras, entender o que está sendo escrito. Espero poder ler o mais rápido possível. Será, com certeza, minha próxima aquisição - torçamos para a Submarino ajudar hahaha
    Beijinhos,
    Karol.
    http://heykarol.blogspot.com.br/

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  10. Oi Mari

    Que resenha fantástica garota! Suas palavras despertaram em mim o desejo de ler esse livro, mesmo quando essa capa me manda manter distância. A premissa do livro é muito interessante e a distopia contida nele parece muito mais próxima da nossa realidade do que a maioria dos distópicos que eu costumo ler.
    Espero poder lê-lo antes do lançamento do filme.

    Beijos
    Mundo de Papel

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  11. Oi Mari,
    Ótima resenha, adorei as ressalvas e nossa... fiquei imaginando a carga do garoto tendo que 'guardar' essas memórias. As ruins, segredos...

    Não sei o que seria de mim viver num mundo sem sentir fome, não. Mas acho que minha mãe agradeceria hahaha

    bjs e um ótimo final de semana
    Nana - Obsession Valley

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Deixe sua sugestão, opinião ou crítica. Prometo lê-las com carinho. Mil beijos, Mari Siqueira.

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